Jornalismo de soluções na agricultura familiar: como aplicar essa técnica e conectar consumidores

segunda-feira, 13 de julho de 2020. Postado por .

“Notícia boa não vende”, já precursiona uma máxima jornalística repetida à exaustão em universidades e por jornalistas de longa data. Não por acaso, o jornalismo é comumente associado a notícias ruins. A própria frase que abre este texto é corroborada por valores-notícia como “negatividade”, “conflito” e “morte”, de acordo com muitos pesquisadores que se propuseram a listá-los (Nelson Traquina, Mauro Wolf e Michael Kunczik entre os mais conhecidos).

Porém, mesmo em contextos essencialmente pessimistas, será que é possível alterar o olhar e propor soluções, focando em medidas que, ainda que incipientes, já mostram resultados? Segundo as práticas de uma teoria chamada Jornalismo de soluções, sim, é possível noticiar iniciativas locais que buscam sanar problemas. A partir disso, há a movimentação de estruturas que podem inspirar outras ações positivas, resultando em um efeito em cadeia. E isso é sempre muito positivo, né?

Pesquisas também apontam que o SoJo – sigla em inglês para Solutions Journalism – também engaja mais os leitores, que estão sobrecarregados de notícias negativas, de acordo com o Center for Media Engagement, da Universidade do Texas.

Nós aplicamos o Jornalismo de Soluções na Cultivo?

Trabalhamos exclusivamente com agricultura familiar e agroecologia na Cultivo, refletindo, portanto, em meio ambiente. Quando nos deparamos com esta teoria, nos perguntamos se já a aplicávamos em nosso trabalho. Mais do que focar em problemas, sempre nos interessou mostrar a agroecologia e suas práticas – sistemas agroflorestais, agricultura sintrópica e agricultura biodinâmica, por exemplo – como alternativas possíveis para construir um presente melhor [torço o nariz para essa ideia de construir o futuro, uma vez que o espaço da mudança é o presente e tudo o que se faz aqui, neste momento, já é sentido de alguma forma].

A partir dessa reflexão e do entendimento do Jornalismo de Soluções, listei 4 maneiras de aplicar a técnica na cobertura da agricultura familiar, da agroecologia e, por consequência, do meio ambiente. Vamos lá?

1 – Mostre ações positivas no campo

A agricultura familiar é, por si só, uma grande solução para produzir alimentos sustentáveis e alimentar a crescente população mundial em tempos de crise, o que ficou ainda mais evidente durante a pandemia da Covid-19, quando mercados internacionais foram ameaçados e prezou-se por ciclos curtos.

Há controvérsias no que tange ao aumento exponencial da população e à urbanização – dois movimentos que contribuem muito para que seja necessário produzir, cada vez mais, alimentos em larga escala. O lobby do agronegócio, focado em grandes multinacionais e pacotes prontos a produtores cujas lavouras são, sobretudo, automatizadas, cresce no mesmo ritmo.

Contudo, despontam soluções que colocam em primeiro plano a produção local, ecológica e que garante renda a famílias camponesas, quilombolas e indígenas, por exemplo. E quem disse que agricultura familiar ecológica não produz em abundância? Vamos mostrar isso?

2 –  Expanda pautas pelo viés da solução de um problema

O aquecimento global é um assunto – com muita razão – emergente no mundo todo. A agricultura familiar e, sobretudo, práticas agroecológicas já solucionam diversas questões que se conectam com a redução na emissão de carbono, preservação da biodiversidade, uso racional dos recursos hídricos, criação de microclimas, soberania alimentar etc.

Nesse aspecto de agroecologia, os sistemas agroflorestais, por exemplo, são os mais avançados e que mais contribuem para solucionar o desmatamento. Já ouviu falar?

Sistema agroflorestal é uma prática ancestral de uso da terra que considera o habitat natural das plantas, utilizando-se da biodiversidade, de sabedorias antigas e da visão holística de uma propriedade como um organismo vivo. Basicamente, combina o cultivo de alimentos com o plantio de árvores. Ou seja, produz alimentos em abundância em uma floresta.

Em outros posts, vamos expandir nossa abordagem sobre SAFs por aqui. Inclusive, o Brasil é super avançado nisso. Os agrofloresteiros mais antigos que temos são os donos dessa terra: os indígenas. Porém, hoje se cultiva até citros nesse sistema – o que agricultores associados à Cooperativa Ecocitrus, nossa cliente, já faz há mais de 20 anos 😉

Enquanto isso, fazemos um convite muito claro aos nossos colegas jornalistas: vamos mostrar que ainda tem jeito e que há um monte de agricultores e agricultoras oferecendo diversas soluções para o aquecimento global bem embaixo do nosso nariz?

Feiras são espaços de contato bem próximo entre agricultores e consumidores, possibilidade de desmistificar muitos conceitos equivocados e de aproximar o campo da cidade

3 – Conte histórias e humanize agricultores e agricultoras familiares sem fazer uso de estereótipos

Este ponto é nossa principal bandeira na Cultivo: nada de reforçar estereótipos de Jeca Tatu. Agricultores familiares não são burros, nem desajeitados e preguiçosos. Muito pelo contrário!

Sabe aquelas fotos clássicas de produtores rurais com chapéus de palha, roupa esfarrapada, enxada na mão e ar sofrido? Elas são, no mínimo, um pouco “batidas” e preconceituosas… Por incrível que pareça, ainda topamos com elas aos montes de vez em quando, sobretudo na representação de produtos industrializados que vendem o slogan de ser “direto da fazenda”. Outra imagem clássica é a do produtor rural “limpo” demais. O que custa utilizar uma fotografia que não pareça saída diretamente do Photoshop?

Visite uma propriedade rural e nós garantimos que há muito mais do que isso!

4 – Coloque-se no lugar do consumidor

Na hora de produzir reportagens e materiais que falem sobre agricultura familiar sob o viés do Jornalismo de Soluções, é importante que se conecte o consumidor por meio do conteúdo. Embora isso pareça fácil, é sempre um desafio fazer o exercício de alteridade: como posso traduzir determinada situação de modo que alguém que não tem ou que não teve a mesma vivência que eu compreenda a importância desse assunto, dessa ação e dessa mudança?

É muito fácil uma pessoa que vive em uma cidade maior não ter noção do caminho do alimento até o supermercado ou a uma feira. Na tentativa de traduzir isso, é importante voltar ao item 3 também.

Boas ações e práticas voltadas à agricultura familiar e à agroecologia temos aos montes para solucionar problemas. O desafio maior é justamente esse: conectar pessoas que, teoricamente, não costumam ter identificação com o assunto. Afinal, se há um ponto em que concordamos é: todos precisamos nos alimentar. Por isso, o tema é tão caro para nós na Cultivo.

Textos de apoio:

Se você quiser compreender mais sobre a teoria do Jornalismo de Soluções, listo uma série de textos online que me auxiliaram a compreender o funcionamento dessa prática. Boa leitura!

https://www.solutionsjournalism.org/ – Solutions Journalism Network – site oficial dessa teoria. Ótimo repositório de materiais e textos interessantes.

https://abraji.org.br/help-desk/entenda-o-que-e-e-como-fazer-jornalismo-de-solucoes

https://portal.comunique-se.com.br/com-foco-no-cidadao-jornalismo-de-solucoes-se-espalha-pela-america-latina/

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/codigo-aberto/jornalismo-de-solucoes-uma-alternativa-para-o-denuncismo-na-imprensa/

https://lume.ufrgs.br/handle/10183/177692

https://ijnet.org/pt-br/story/o-papel-do-jornalismo-de-solu%C3%A7%C3%B5es-na-reportagem-sobre-covid-19

https://ijnet.org/pt-br/story/solu%C3%A7%C3%B5es-podem-dar-f%C3%B4lego-ao-jornalismo-inclusive-ambiental

https://thewholestory.solutionsjournalism.org/the-coronavirus-pandemic-reporting-on-whats-working-even-in-modest-ways-helps-tell-the-whole-c3c5e761453d

Sabe de mais algum texto ou tem mais alguma dica voltada ao trabalho do jornalismo de soluções com agricultura familiar, agroecologia e meio ambiente? Então mande para a gente aqui nos comentários ou me escreva para candida@agenciacultivo.com.br. 🙂

4 respostas para “Jornalismo de soluções na agricultura familiar: como aplicar essa técnica e conectar consumidores”

  1. José Stein disse:

    Olá Cândida e Laís!
    Sou suspeito em falar pq tenho origens na Agricultura Familiar.
    É louvável vosso empenho em mostrar a importância que envolve o tema. Tenho certeza que bons frutos esta árvore produzirá, pq foi plantada em terreno fértil.

    • Cândida Schaedler disse:

      Oi, José!
      Muito obrigada pelo apoio de sempre. Fico feliz que nosso trabalho ressoe positivamente em uma pessoa como tu 🙂
      Abraço.

  2. Juliana Faria disse:

    Olá! Muito obrigada por esse post!! Conheci o trabalho de vocês ontem e estou encantada. Sou estudante de jornalismo e meu objetivo é fazer, ano que vem, meu TCC (grande reportagem) sobre agroecologia na região onde moro. Venho estudando bastante, assistindo conteúdos e anotando algumas ideias! A postagem de vocês foi fundamental para expandir minha mente quanto ao assunto! Muito obrigada mesmo! Definitivamente vou usar todas as dicas e conhecimentos que adquiri com vocês! 💚

    • Cândida Schaedler disse:

      Olá, Juliana!
      Muito obrigada pelo comentário. Ficamos super felizes em saber que nosso conteúdo tenha te ajudado e que estejas interessada em pesquisar o assunto 😀
      Se precisar da gente, é só chamar!
      Abraço.

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